quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O QUE SE ENTENDE POR “MILÍCIAS” NO BRASIL E SUAS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS/WHAT IS UNDERSTOOD BY “MILITIAS” IN BRAZIL AND THEIR POLITICAL IMPLICATIONS

 

O QUE SE ENTENDE POR   “MILÍCIAS” NO BRASIL E SUAS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS

Joao Evangelista 

A caracterização das milícias no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, é bem distinta da ideia de “milícia” em outros países. No exterior, o termo costuma estar ligado a grupos armados que se organizam para disputar poder político ou militar, muitas vezes em contextos de guerra civil, insurgência ou resistência.

Há muitos anos, a palavra “milícia” passou a ser associada a ex-policiais no Rio de Janeiro porque esses grupos nasceram de antigos “esquadrões da morte” e grupos de extermínio formados por policiais e ex-policiais durante a ditadura militar. Com o tempo, eles evoluíram para controlar territórios e explorar economicamente comunidades das favelas, consolidando-se como uma máfia composta majoritariamente por agentes de segurança.

Por que as milícias são formadas por ex-policiais?

Muitos moradores viam esses grupos como uma alternativa ao tráfico de drogas, já que ofereciam uma “segurança” aparente.

As milícias são formadas principalmente por policiais militares e civis (ativos ou expulsos), bombeiros, carcereiros e ex-policiais. Com o tempo, passaram a dominar comunidades inteiras, explorando serviços como gás, transporte alternativo, TV a cabo clandestina e até moradia. A estrutura hierárquica e a disciplina militar dos integrantes reforçaram a associação direta entre “milícia” e ex-policiais.

O termo “milícia” se popularizou para designar esses grupos, que já não eram apenas esquadrões de extermínio, mas verdadeiras máfias territoriais. Não são grupos insurgentes contra o Estado, mas máfias formadas por policiais e ex-policiais. Seu objetivo não é tomar o poder político nacional, mas explorar economicamente comunidades por meio de extorsão e monopólio de serviços. A relação com a política existe, mas de forma indireta: milicianos apoiam candidatos locais, influenciam eleições e infiltram-se em cargos públicos para proteger seus negócios.

As milícias disputam com o tráfico de drogas?

Sim. No Rio de Janeiro, as milícias disputam território e influência com o tráfico de drogas, mas de uma forma peculiar.

Milícias e facções do tráfico competem pelo controle de comunidades. Quem domina a área controla a circulação de pessoas, o comércio e a cobrança de taxas.

Enquanto o tráfico lucra principalmente com a venda de drogas, as milícias exploram serviços como transporte alternativo, gás, internet clandestina e moradia. Quando entram em áreas antes dominadas pelo tráfico, passam a cobrar taxas e expulsar traficantes. Essa disputa gera confrontos armados, muitas vezes mais violentos do que a guerra entre facções, porque envolve ex-policiais com treinamento militar e acesso a armas pesadas.

O assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018

O assassinato da vereadora Marielle Franco está diretamente relacionado às milícias do Rio de Janeiro.

Os mandantes do crime — os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal em 2026 por integrarem uma organização criminosa armada ligada às milícias e por ordenar a execução da parlamentar.

Marielle era uma crítica contundente das milícias, denunciava a grilagem de terras e a exploração ilegal em comunidades das favelas. Sua atuação política ameaçava os interesses econômicos e territoriais dos Brazão e de outros grupos milicianos. O crime teve caráter político e simbólico, marcado por misoginia e racismo.

Qual a relação da família Bolsonaro com as milícias?

A relação da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro é marcada por episódios documentados de proximidade política e pessoal, sobretudo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro.

Investigações apontam homenagens, empregos a familiares de milicianos e destinação de emendas parlamentares a organizações ligadas a condenados por crimes de milícia.

Quem foi Adriano da Nóbrega?

 

Ex-capitão do BOPE, apontado pelo Ministério Público como líder da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio “Escritório do Crime”. Em 2018, já eleito senador, Flávio Bolsonaro concedeu a Medalha Tiradentes a Adriano e empregou sua mãe e ex-esposa em cargos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). No início de 2019, investigações sobre corrupção revelaram movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio, ligadas a familiares de Adriano.

 

A fuga e morte de Adriano. Queima de Arquivo?

Adriano da Nóbrega teve que fugir porque estava sendo investigado e acusado de liderar a milícia de Rio das Pedras e o “Escritório do Crime”, responsável por assassinatos por encomenda, inclusive suspeitas ligadas ao caso Marielle Franco.  Ou seja, Adriano se tornou um perigo para certas ambições políticas. Em fevereiro de 2020, Adriano foi morto em uma operação policial na Bahia. A alegação foi de que ele resistiu à prisão. A família dele  afirma que ele tentou se entregar à polícia.

Impacto político até a atualidade

A eleição de Jair Bolsonaro trouxe à tona críticas sobre a infiltração das milícias na política carioca e nacional, já que figuras próximas à família estavam ligadas a esses grupos. O caso Marielle e a morte de Adriano se tornaram símbolos da dificuldade em separar segurança pública, política e crime organizado no Estado do Rio de Janeiro. Em resumo: a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, assim como a candidatura de seu filho primogênito, Flávio Bolsonaro, para futuras eleições presidenciais, não pode ser entendida isolada das conexões históricas da família com figuras ligadas às milícias mafiosas.

 


WHAT IS UNDERSTOOD BY “MILITIAS” IN BRAZIL AND THEIR POLITICAL IMPLICATIONS

Joao Evangelista 

The characterization of militias in Brazil, more specifically in Rio de Janeiro, is quite different from the idea of “militia” in other countries. Abroad, the term is usually linked to armed groups organized to dispute political or military power, often in contexts of civil war, insurgency, or resistance.

For many years, the word “militia” has been associated with former police officers in Rio de Janeiro because these groups originated from the old “death squads” and extermination groups formed by police and ex-police officers during the military dictatorship. Over time, they evolved to control territories and economically exploit favela communities, consolidating themselves as a mafia composed mostly of security agents.

Why are militias formed by ex-police officers?

Many residents initially saw these groups as an alternative to drug trafficking, since they offered an apparent “security.”

Militias are mainly composed of military and civil police officers (active or expelled), firefighters, prison guards, and former police officers. Over time, they came to dominate entire communities, exploiting services such as gas distribution, alternative transportation, illegal cable TV, and even housing. The hierarchical structure and military discipline of their members reinforced the direct association between “militia” and ex-police officers.

The term “militia” became popular to designate these groups, which were no longer just extermination squads but true territorial mafias. They are not insurgent groups against the State, but mafias formed by police and ex-police officers. Their goal is not to seize national political power, but to economically exploit communities through extortion and monopolization of services. Their relationship with politics exists, but indirectly: militiamen support local candidates, influence elections, and infiltrate public offices to protect their businesses.

Do militias compete with drug trafficking?

Yes. In Rio de Janeiro, militias compete for territory and influence with drug trafficking, but in a peculiar way.

Militias and drug factions fight for control of communities. Whoever dominates the area controls the movement of people, commerce, and the collection of fees.

While drug traffickers profit mainly from selling narcotics, militias exploit services such as alternative transportation, gas, illegal internet, and housing. When they enter areas previously dominated by traffickers, they begin charging fees and expelling them. This dispute generates armed clashes, often more violent than wars between drug factions, because it involves ex-police officers with military training and access to heavy weapons.

The assassination of councilwoman Marielle Franco in 2018

The assassination of councilwoman Marielle Franco is directly related to Rio de Janeiro’s militias.

The masterminds of the crime — brothers Domingos and Chiquinho Brazão — were convicted by the Supreme Federal Court in 2026 for being part of an armed criminal organization linked to militias and for ordering the execution of the parliamentarian.

Marielle was a strong critic of militias, denouncing land grabbing and illegal exploitation in favela communities. Her political activity threatened the economic and territorial interests of the Brazão brothers and other militia groups. The crime had a political and symbolic character, marked by misogyny and racism.

What is the Bolsonaro family’s relationship with militias?

The Bolsonaro family’s relationship with Rio de Janeiro’s militias is marked by documented episodes of political and personal proximity, especially involving Senator Flávio Bolsonaro.

Investigations point to tributes, employment of relatives of militiamen, and allocation of parliamentary funds to organizations linked to individuals convicted of militia crimes.

Who was Adriano da Nóbrega?

 

A former BOPE captain, identified by the Public Prosecutor’s Office as leader of the militia based in Rio das Pedras, a large community within the municipality of Rio de Janeiro, and the extermination group “Escritório do Crime.”(crime bureau) In 2018, already elected senator, Flávio Bolsonaro awarded Adriano the Tiradentes Medal and employed his mother and ex-wife in positions at the Rio de Janeiro State Assembly (Alerj). In early 2019, corruption investigations revealed suspicious financial transactions by Fabrício Queiroz, Flávio’s aide, linked to Adriano’s relatives.

 

Adriano’s escape and death. A “cover-up”?

Adriano da Nóbrega had to flee because he was being investigated and accused of leading the Rio das Pedras militia and the “Escritório do Crime,” responsible for contract killings, including suspicions related to the Marielle Franco case. In other words, Adriano became a danger to certain political ambitions. In February 2020, Adriano was killed in a police operation in Bahia. The official claim was that he resisted arrest. His family insists he tried to surrender to the police.

Political impact to the present day

The election of Jair Bolsonaro brought to light criticisms about the infiltration of militias into Rio de Janeiro’s and Brazil’s politics, since figures close to his family were linked to these groups. The Marielle case and Adriano’s death became symbols of the difficulty in separating public security, politics, and organized crime in Rio de Janeiro.

In summary: Jair Bolsonaro’s election in 2018, as well as the presidential candidacy of his eldest son, Flávio Bolsonaro, cannot be understood apart from the family’s historical connections with figures linked to these mafia-like militias.