quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O QUE SE ENTENDE POR “MILÍCIAS” NO BRASIL E SUAS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS/WHAT IS UNDERSTOOD BY “MILITIAS” IN BRAZIL AND THEIR POLITICAL IMPLICATIONS

 

O QUE SE ENTENDE POR   “MILÍCIAS” NO BRASIL E SUAS IMPLICAÇÕES POLÍTICAS

Joao Evangelista 

A caracterização das milícias no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro, é bem distinta da ideia de “milícia” em outros países. No exterior, o termo costuma estar ligado a grupos armados que se organizam para disputar poder político ou militar, muitas vezes em contextos de guerra civil, insurgência ou resistência.

Há muitos anos, a palavra “milícia” passou a ser associada a ex-policiais no Rio de Janeiro porque esses grupos nasceram de antigos “esquadrões da morte” e grupos de extermínio formados por policiais e ex-policiais durante a ditadura militar. Com o tempo, eles evoluíram para controlar territórios e explorar economicamente comunidades das favelas, consolidando-se como uma máfia composta majoritariamente por agentes de segurança.

Por que as milícias são formadas por ex-policiais?

Muitos moradores viam esses grupos como uma alternativa ao tráfico de drogas, já que ofereciam uma “segurança” aparente.

As milícias são formadas principalmente por policiais militares e civis (ativos ou expulsos), bombeiros, carcereiros e ex-policiais. Com o tempo, passaram a dominar comunidades inteiras, explorando serviços como gás, transporte alternativo, TV a cabo clandestina e até moradia. A estrutura hierárquica e a disciplina militar dos integrantes reforçaram a associação direta entre “milícia” e ex-policiais.

O termo “milícia” se popularizou para designar esses grupos, que já não eram apenas esquadrões de extermínio, mas verdadeiras máfias territoriais. Não são grupos insurgentes contra o Estado, mas máfias formadas por policiais e ex-policiais. Seu objetivo não é tomar o poder político nacional, mas explorar economicamente comunidades por meio de extorsão e monopólio de serviços. A relação com a política existe, mas de forma indireta: milicianos apoiam candidatos locais, influenciam eleições e infiltram-se em cargos públicos para proteger seus negócios.

As milícias disputam com o tráfico de drogas?

Sim. No Rio de Janeiro, as milícias disputam território e influência com o tráfico de drogas, mas de uma forma peculiar.

Milícias e facções do tráfico competem pelo controle de comunidades. Quem domina a área controla a circulação de pessoas, o comércio e a cobrança de taxas.

Enquanto o tráfico lucra principalmente com a venda de drogas, as milícias exploram serviços como transporte alternativo, gás, internet clandestina e moradia. Quando entram em áreas antes dominadas pelo tráfico, passam a cobrar taxas e expulsar traficantes. Essa disputa gera confrontos armados, muitas vezes mais violentos do que a guerra entre facções, porque envolve ex-policiais com treinamento militar e acesso a armas pesadas.

O assassinato da vereadora Marielle Franco em 2018

O assassinato da vereadora Marielle Franco está diretamente relacionado às milícias do Rio de Janeiro.

Os mandantes do crime — os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão — foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal em 2026 por integrarem uma organização criminosa armada ligada às milícias e por ordenar a execução da parlamentar.

Marielle era uma crítica contundente das milícias, denunciava a grilagem de terras e a exploração ilegal em comunidades das favelas. Sua atuação política ameaçava os interesses econômicos e territoriais dos Brazão e de outros grupos milicianos. O crime teve caráter político e simbólico, marcado por misoginia e racismo.

Qual a relação da família Bolsonaro com as milícias?

A relação da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro é marcada por episódios documentados de proximidade política e pessoal, sobretudo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro.

Investigações apontam homenagens, empregos a familiares de milicianos e destinação de emendas parlamentares a organizações ligadas a condenados por crimes de milícia.

Quem foi Adriano da Nóbrega?

 

Ex-capitão do BOPE, apontado pelo Ministério Público como líder da milícia de Rio das Pedras e do grupo de extermínio “Escritório do Crime”. Em 2018, já eleito senador, Flávio Bolsonaro concedeu a Medalha Tiradentes a Adriano e empregou sua mãe e ex-esposa em cargos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). No início de 2019, investigações sobre corrupção revelaram movimentações financeiras de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio, ligadas a familiares de Adriano.

 

A fuga e morte de Adriano. Queima de Arquivo?

Adriano da Nóbrega teve que fugir porque estava sendo investigado e acusado de liderar a milícia de Rio das Pedras e o “Escritório do Crime”, responsável por assassinatos por encomenda, inclusive suspeitas ligadas ao caso Marielle Franco.  Ou seja, Adriano se tornou um perigo para certas ambições políticas. Em fevereiro de 2020, Adriano foi morto em uma operação policial na Bahia. A alegação foi de que ele resistiu à prisão. A família dele  afirma que ele tentou se entregar à polícia.

Impacto político até a atualidade

A eleição de Jair Bolsonaro trouxe à tona críticas sobre a infiltração das milícias na política carioca e nacional, já que figuras próximas à família estavam ligadas a esses grupos. O caso Marielle e a morte de Adriano se tornaram símbolos da dificuldade em separar segurança pública, política e crime organizado no Estado do Rio de Janeiro. Em resumo: a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, assim como a candidatura de seu filho primogênito, Flávio Bolsonaro, para futuras eleições presidenciais, não pode ser entendida isolada das conexões históricas da família com figuras ligadas às milícias mafiosas.

 


WHAT IS UNDERSTOOD BY “MILITIAS” IN BRAZIL AND THEIR POLITICAL IMPLICATIONS

Joao Evangelista 

The characterization of militias in Brazil, more specifically in Rio de Janeiro, is quite different from the idea of “militia” in other countries. Abroad, the term is usually linked to armed groups organized to dispute political or military power, often in contexts of civil war, insurgency, or resistance.

For many years, the word “militia” has been associated with former police officers in Rio de Janeiro because these groups originated from the old “death squads” and extermination groups formed by police and ex-police officers during the military dictatorship. Over time, they evolved to control territories and economically exploit favela communities, consolidating themselves as a mafia composed mostly of security agents.

Why are militias formed by ex-police officers?

Many residents initially saw these groups as an alternative to drug trafficking, since they offered an apparent “security.”

Militias are mainly composed of military and civil police officers (active or expelled), firefighters, prison guards, and former police officers. Over time, they came to dominate entire communities, exploiting services such as gas distribution, alternative transportation, illegal cable TV, and even housing. The hierarchical structure and military discipline of their members reinforced the direct association between “militia” and ex-police officers.

The term “militia” became popular to designate these groups, which were no longer just extermination squads but true territorial mafias. They are not insurgent groups against the State, but mafias formed by police and ex-police officers. Their goal is not to seize national political power, but to economically exploit communities through extortion and monopolization of services. Their relationship with politics exists, but indirectly: militiamen support local candidates, influence elections, and infiltrate public offices to protect their businesses.

Do militias compete with drug trafficking?

Yes. In Rio de Janeiro, militias compete for territory and influence with drug trafficking, but in a peculiar way.

Militias and drug factions fight for control of communities. Whoever dominates the area controls the movement of people, commerce, and the collection of fees.

While drug traffickers profit mainly from selling narcotics, militias exploit services such as alternative transportation, gas, illegal internet, and housing. When they enter areas previously dominated by traffickers, they begin charging fees and expelling them. This dispute generates armed clashes, often more violent than wars between drug factions, because it involves ex-police officers with military training and access to heavy weapons.

The assassination of councilwoman Marielle Franco in 2018

The assassination of councilwoman Marielle Franco is directly related to Rio de Janeiro’s militias.

The masterminds of the crime — brothers Domingos and Chiquinho Brazão — were convicted by the Supreme Federal Court in 2026 for being part of an armed criminal organization linked to militias and for ordering the execution of the parliamentarian.

Marielle was a strong critic of militias, denouncing land grabbing and illegal exploitation in favela communities. Her political activity threatened the economic and territorial interests of the Brazão brothers and other militia groups. The crime had a political and symbolic character, marked by misogyny and racism.

What is the Bolsonaro family’s relationship with militias?

The Bolsonaro family’s relationship with Rio de Janeiro’s militias is marked by documented episodes of political and personal proximity, especially involving Senator Flávio Bolsonaro.

Investigations point to tributes, employment of relatives of militiamen, and allocation of parliamentary funds to organizations linked to individuals convicted of militia crimes.

Who was Adriano da Nóbrega?

 

A former BOPE captain, identified by the Public Prosecutor’s Office as leader of the militia based in Rio das Pedras, a large community within the municipality of Rio de Janeiro, and the extermination group “Escritório do Crime.”(crime bureau) In 2018, already elected senator, Flávio Bolsonaro awarded Adriano the Tiradentes Medal and employed his mother and ex-wife in positions at the Rio de Janeiro State Assembly (Alerj). In early 2019, corruption investigations revealed suspicious financial transactions by Fabrício Queiroz, Flávio’s aide, linked to Adriano’s relatives.

 

Adriano’s escape and death. A “cover-up”?

Adriano da Nóbrega had to flee because he was being investigated and accused of leading the Rio das Pedras militia and the “Escritório do Crime,” responsible for contract killings, including suspicions related to the Marielle Franco case. In other words, Adriano became a danger to certain political ambitions. In February 2020, Adriano was killed in a police operation in Bahia. The official claim was that he resisted arrest. His family insists he tried to surrender to the police.

Political impact to the present day

The election of Jair Bolsonaro brought to light criticisms about the infiltration of militias into Rio de Janeiro’s and Brazil’s politics, since figures close to his family were linked to these groups. The Marielle case and Adriano’s death became symbols of the difficulty in separating public security, politics, and organized crime in Rio de Janeiro.

In summary: Jair Bolsonaro’s election in 2018, as well as the presidential candidacy of his eldest son, Flávio Bolsonaro, cannot be understood apart from the family’s historical connections with figures linked to these mafia-like militias.

sábado, 20 de junho de 2026

Guerra do Irã: as lições do acordo de cessar-fogo

 

Guerra do Irã: as lições do acordo de cessar-fogo

Por Michael Pröbsting, Corrente Comunista Revolucionária Internacional (CCRI/RCIT), 18 de junho de 2026, www.thecommunists.net

O Memorando de Entendimento entre os EUA e o Irã foi assinado oficialmente pelos presidentes de ambos os países e publicado por vários meios de comunicação. O texto oficial é principalmente idêntico às versões que já circularam desde o último domingo e que informamos na declaração da CCRI de 15 de junho. [1] Confirma plenamente a nossa avaliação de que a Guerra do Irão resultou numa derrota humilhante do imperialismo norte-americano e da entidade sionista. [2]

Os EUA tiveram que acabar com sua guerra contra o Irã sem realizar nenhum de seus objetivos – partir da mudança de regime, “rendição incondicional”, enfraquecimento do “Eixo de Resistência” à destruição do programa nuclear e de mísseis de Teerã. Não só isso, mas o Irã também saiu da guerra significativamente fortalecido. O Memorando aceita o controle do Irã (junto com Omã com o qual Teerã tem relações estreitas) do Estreito de Ormuz. Da mesma forma, os EUA emitirão isenções para as exportações de petróleo bruto iraniano, produtos petroquímicos e seus derivados, e todos os serviços relacionados, incluindo bancos, seguros, transporte e similares (tudo isso foi sancionado há anos). Além disso, o Memorando exige o fim dos combates também no Líbano e confirma a integridade territorial do país – uma fórmula que obriga Israel a cessar a guerra contra o Hezbollah e a retirar suas tropas do país.

Não são apenas os escritores anti-imperialistas e pró-Irã que falam de uma derrota dos EUA e de Israel. Existe quase um consenso entre os observadores políticos tradicionais de que esta guerra terminou como um fracasso para a Administração Trump. Marc Champion, da Bloomberg, fala sobre “as marcas da derrota” [3], e a revista The Atlantic escreve sobre “derrota” e “capitulação” [4]. Os linha-dura sionistas e defensores de uma linha-dura contra o Irã no Partido Republicano e no movimento MAGA estão incrédulos com a mudança de posição de Trump, e a opinião pública em Israel está unida na indignação com o Memorando.

Enquanto os sionistas foram triunfantes nos últimos dois anos, o desespero está se espalhando agora. O canal israelense i24News cita um alto funcionário israelense dizendo: "Se soubéssemos que esses seriam os resultados finais da operação em termos de hábito político, é altamente duvidoso que teríamos embarcado neste evento." Especialistas em assuntos militares estão alertando que o Irã está se tornando uma potência regional. Alon Ben David, um veterano correspondente militar do Channel 13 News, disse que o acordo emergente pode ser um golpe para a posição de Israel no Oriente Médio com implicações de longo alcance. "Este é um dia dramático para Israel e para as gerações vindouras", acrescentando que o acordo "marca um ponto de virada no Oriente Médio ". [5]

Às vezes, há um tanto verdade nas declarações estranhas de Trump. Ontem, na reunião do G7 em França, o Presidente americano tentou justificar a sua mudança de posição desde a exigir a “rendição total” do Irão à aceitação da derrota. Ele disse que, sem o acordo com o Irã, o mundo enfrentaria "um caos" se o bloqueio do Estreito de Ormuz tivesse continuado. “Eu não queria ver uma catástrofe econômica”, acrescentando que "O único presidente que eu não queria ser era o falecido, ótimo, Herbert Hoover", o notório norte-americano presidente em 1929-33 durante os piores anos de depressão da história moderna. Trump também disse que as reservas globais de petróleo devem se esgotar se os navios comerciais não forem autorizados a atravessar o Estreito de Ormuz. "Nós ficaríamos sem reservas em cerca de quatro semanas”, ”acrescentando que “se continuássemos bombardeando, esses navios não conseguriam passar." [6] Tais declarações demonstram que o Irã estava praticandoeficaz resistência contra o monstro americano-sionista.

O declínio dos EUA como a hegemonia global



Então, quais são as lições da Guerra do Irã na primavera de 2026, ou a “Guerra do Ramadã”, como é frequentemente chamada no muçulmano mundo? Primeiro, é uma confirmação completa da análise marxista da situação mundial que é caracterizada pelo declínio dos EUA como a hegemonia global, a ascensão da China (e da Rússia) como novas potências imperialistas e a crise da aliança transatlântica entre a América e a Europa. [7] O surgimento de novos rivais imperialistas anda de mãos dadas com a aceleração da crise política e econômica dos EUA. O galope aumento da dívida pública empurra a Administração a usar uma parcela cada vez maior de sua renda para servir sua dívida. Segundo o Comitê para um Orçamento Federal Responsável, os custos de juros consumiam a recorde de 3,25% do PIB e cerca de 19% de toda a receita federal no ano fiscal de 2025. [8]

Ao mesmo tempo, a polarização política nos EUA se aprofunda, resultando em protestos em massa de milhões de pessoas contra o governo Trump e sua política racista, autoritária e militarista. Esse processo anda de mãos dadas com uma crise ideológica, já que os cidadãos estão menos orgulhosos, menos unidos religiosamente e perdendo a fé de que o Sonho Americano ainda funciona. Apenas 51% dos americanos dizem estar extremamente ou muito orgulhosos de serem americanos, uma queda acentuada em relação aos 82% em 2013. [9]

Diante de tal declínio, como mostramos em vários documentos, os Estados Unidos em sua nova Estratégia de Segurança Nacional que no próximo período não será capaz de dominar o mundo inteiro mas sim focar em controlar o Hemisfério Ocidental. [10]

O resultado da guerra com uma derrota para os EUA confirma nossa tese sobre seu declínio como potência global. Isso mostra que aqueles que ainda afirmam que o “Império Americano” dominaria o mundo deixando de entender a dinâmica do desenvolvimento global, a profundidade da crise dos EUA e seu controle cada vez menor sobre partes do mundo. [11]

Guerra disfuncional e a crise existencial de Israel



Isso nos leva ao próximo ponto. Dado tal declínio, a CCRI explicou desde o início da guerra que este conflito é, por parte dos EUA, uma guerra disfuncional. Nós mostramos com uma série de fatos que esta guerra não foi resultado da estratégia de Washington, mas sim de cálculos políticos de curto prazo, dada a extrema impopularidade de Trump e devido a manipulações sionistas. Consequentemente, o Pentágono estava mal preparado para tal guerra e quando o Irã ofereceu forte resistência, os EUA foram forçados a recuar. [12]

Com base nessa análise, entendemos rapidamente que o imperialismo americano havia subestimado ido longe demais e que o Irã e seus aliados tinham boas perspectivas de resistir ao ataque brutal. [13]

Em contraste, a guerra estava em plena conformidade com os interesses estratégicos de Israel. No entanto, a entidade sionista é apenas uma potência imperialista júnior e sem os EUA dificilmente poderiam sobreviver (como Trump lembrou o insubordinado Netanyahu recentemente). É exatamente por esta razão que o resultado da Guerra do Irã é tão catastrófico para Israel. Não é só porque a guerra não conseguiu atingir seus objetivos e não só porque o Irã saiu muito mais forte. O resultado da guerra é provavelmente ainda mais devastador porque provocou a mais séria crise na aliança entre Washington e o estado Sionista. E tal crise ocorre com a Administração mais à direita e sionista no poder nos EUA! Não há outro força política relevante nos EUA que seja mais pró-Israel.

Na verdade, o que temos visto nos últimos meses não é apenas um desentendimento pessoal entre os dois "homens fortes", mas sim uma ruptura na relação estratégica. entre o imperialismo norte-americano e o Estado sionista. Qual é a causa deste desenvolvimento? Primeiro, como mencionado antes, os EUA estão em declínio, e isso o força a não priorizar seu envolvimento no Oriente Médio. A América não pode mais se dar ao luxo de ter tantas bases militares, navios e tropas na região. É por isso que eles esperavam estabilizar a região com Israel como a força mais forte e uma rede de Estados árabes aliados à entidade sionista com base nos chamados Acordos de Abraão. Esta tem sido a estratégia de Washington há vários anos e a revolta de 7 de outubro da resistência palestina foi dirigida contra esse processo.

A combinação da luta heróica da resistência palestina, o renascimento do Hezbollah no Líbano e agora a vitória do Irã destruíram o plano dos EUA para o Oriente Médio. Na verdade, o Estado sionista está enfrentando sua crise mais grave com um número crescente de colonos deixando o país. Os nossos camaradas da Liga Socialista Internacionalista na Palestina Ocupada duvida se este Estado sobreviverá por mais uma década. [14] No final, apesar da terrível situação em Gaza, as esperanças dos iniciadores do 7 de Outubro de sabotar o processo de normalização sionista pôde finalmente ser cumprido.

Seja como for, não há dúvida de que a crise política em Israel vai aumentar. Da mesma forma, a derrota do monstro americano-sionista colocou a ordem regional no Oriente Médio em crise. É provável que, como resultado de sua derrota, os EUA reduzam sua presença militar na região. Os regimes árabes terão de pensar em novas alianças ou pelo menos adicionando novos aliados (por exemplo, China, Rússia, Paquistão, Turquia, Irã) dado o declínio e a falta de confiabilidade dos EUA. Além disso, o resultado da guerra e a manifestação pública que a resistência contra os agressores imperialistas é possível e pode vencer vai minar enormemente a legitimidade já corroída dos regimes tirânicos. Vejam o Líbano, onde o exército covarde nunca dispara um tiro contra os sionistas – mas o Hezbollah e o Irã conseguiram detê-los! É evidente que a vitória iraniana terá efeitos inspiradores em toda a região e incentivará as massas oprimidas para pressionar pela guerra contra o monstro americano-sionista.

Ficar do lado do Irã nesta guerra foi a única posição correta

Finalmente, o resultado da guerra confirmou a posição da CCRI e todos os marxistas autênticos para tomar o lado do Irã e seus aliados em sua guerra contra a agressão imperialista. Desde o início da guerra, dissemos “Defender o Irã – Derrotar o monstro sionista-americano! ” [15]

Isso significa que apoiamos sua resistência com base na tática de frente única anti-imperialista sem dar apoio político ao regime. Nós participamos de inúmeras atividades antiguerra mostrando nossa solidariedade com a resistência do Irã. [16]

Infelizmente, muitos esquerdistas não conseguiram adotar uma postura baseada em tais princípios. Eles tomaram uma posição vergonhosa de distânciamento entre os EUA e o Irã, reivindicando isso ambos representariam forças do mal. Tais esquerdistas ignoram completamente o axioma marxista de que o caráter de uma guerra não é determinado pela natureza dos governos, mas pelo caráter de classe de esses estados. Neste caso, tivemos uma guerra com a maior potência imperialista e uma menor de um lado (EUA e Israel) e o Irã como uma semi-colônia capitalista do outro lado. Para Marxistas, tomar uma posição de neutralidade em tal conflito é traição!

Outros platonicamente ficaram do lado do Irã, dizendo que “tem um direito de autodefesa”, mas se absteve de defender sua vitória militar e participar atividades práticas de solidariedade com o Irã durante a guerra. Na realidade, o Irã não tinha apenas o direito, mas o dever de lutar contra os agressores imperialistas e, igualmente, os socialistas tinham o dever de apoiar tal resistência.

Socialistas são testados em eventos históricos. A Guerra do Irã é um evento histórico, pois acelerará o declínio do imperialismo dos EUA, bem como do estado sionista colonizador e ele vai reordenar o Oriente Médio. Temos orgulho de ter estado do lado certo da história nesta guerra!

[1] Memorando de Entendimento de Islamabad entre a República Islâmica do Irão e os Estados Unidos da América, 17 de junho de 2026, Fontes: Tasnim, https://www.tasnimnews.ir/en/news/2026/06/17/3620176/full-text-of-iran-us-memorandum-of-understanding-released; Al-Jazeera: https://www.aljazeera.com/news/2026/6/17/read-the-us-account-of-unreleased-14-point-iran-ceasefire-memorandum; Axios: https://www.axios.com/2026/06/17/read-full-us-iran-deal-memorandum-understanding

[2] CCRI: Irão Humilha o Monstro Americano-Sionista! O Memorando de Entendimento para acabar com a Guerra do Irão representa uma derrota estratégica para os EUA e Israel, 15 de junho de 2026, https://www.thecommunists.net/worldwide/africa-and-middle-east/the-memorandum-of-understanding-iran-humiliates-the-american-zionist-monster/

[3] Marc Champion: A Trégua de Trump com o Irão Tem as Caraterísticas da Derrota, Bloomberg, 15 de junho de 2026, https://www.bloomberg.com/opinion/articles/2026-06-15/iran-us-peace-deal-trump-s-iran-truce-has-the-hallmarks-of-defeat



[4] Jonathan Lemire: Trump em Derrota. O presidente entrou em guerra triunfante e provavelmente sairá bastante enfraquecido, 17 de junho de 2026, https://www.theatlantic.com/national-security/2026/06/trump-defeat-iran-war/687566/; Tom Nichols: Trump Celebra Enquanto a América Capitula. O acordo de paz com Teerão é uma vitória iraniana, 14 de junho de 2026, https://www.theatlantic.com/ideas/2026/06/trump-iran-deal/687547/

[5] Mera Aladam: Oficial israelita diz que a guerra com o Irão pode não ter valido a pena lançar, Middle East Eye, 17 de junho de 2026, https://www.middleeasteye.net/news/israeli-official-says-iran-war-may-not-have-been-worth-launching-report



[6] Sean Mathews: Trump justifica acordo com o Irão como forma de evitar 'catástrofe económica', Middle East Eye, 17 de junho de 2026, https://www.middleeasteye.net/news/trump-defends-iran-deal-way-prevent-economic-catastrophe

[7] Ver, por exemplo, o nosso livro de Michael Pröbsting: Anti-Imperialismo na Era da Rivalidade das Grandes Potências. Os Fatores por detrás da Aceleração da Rivalidade entre os EUA, a China, a Rússia, a UE e o Japão. Uma Crítica à Análise da Esquerda e um Esboço da Perspetiva Marxista, RCIT Books, Viena 2019, https://www.thecommunists.net/home/portugu%C3%AAs/livro-o-anti-imperialismo-na-era-da-rivalidade-das-grandes-potencias-conteudo/;



[8] Nick Lichtenberg: Os juros da dívida nacional estão a consumir um recorde de 19% da receita federal - e o fiscalizador alerta que vai piorar, 27 de Maio de 2026, https://fortune.com/2026/05/27/national-debt-interest-payments-30-percent-revenue-bond-yields-crfb/

[9] Russell Contreras: O orgulho americano caiu de repente, Axios, https://www.axios.com/2026/06/17/america-250-religion-race-patriotism

[10] Sobre a nova doutrina de política externa dos EUA, veja por exemplo Michael Pröbsting: Uma Confirmação Oficial de que os EUA Já não São o Hegemónico Global. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump delineia uma estratégia para o imperialismo dos EUA num mundo multipolar, 11 de dezembro de 2025, https://www.thecommunists.net/worldwide/global/an-official-confirmation-that-the-u-s-is-no-longer-the-global-hegemon/ ; pelo mesmo autor: Uma Mudança Importante na Doutrina de Política Externa de Washington. O rascunho da mais recente Estratégia de Defesa Nacional do Pentágono reflete o declínio dramático do imperialismo dos EUA, 10 de setembro de 2025, https://www.thecommunists.net/worldwide/global/a-major-shift-in-washington-s-foreign-policy-doctrine/ ; Uma espécie de confirmação oficial. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, admite o fim da hegemonia dos EUA e o início da ordem mundial multipolar, 3 de fevereiro de 2025, https://www.thecommunists.net/worldwide/global/u-s-secretary-of-state-rubio-admits-end-of-u-s-hegemony/

[11] Temos discutido esta questão repetidamente com outras organizações na última década. Para o nosso debate mais recente, veja Debate sobre a Situação Mundial. Uma discussão entre G Perrault (Espartacista) e Michael Pröbsting (RCIT), 10 de junho de 2026, https://www.thecommunists.net/rcit/rcit-activities-in-2026-part-3/#anker_16 ; Michael Pröbsting: Sobre o “Império dos EUA” e a Rivalidade Interimperialista, 13 de maio de 2026, https://www.thecommunists.net/worldwide/global/on-the-u-s-empire-and-inter-imperialist-rivalry/

[12] Michael Pröbsting: Guerra do Irão: O que torna a guerra da América contra o Irão diferente das suas guerras passadas desde 1945? Notas sobre o ataque aventureiro de Trump que contrasta com a estratégia de Washington, 5 de março de 2026, https://www.thecommunists.net/worldwide/africa-and-middle-east/what-makes-america-s-war-against-iran-different-from-its-past-wars-since-1945/ ; para uma compilação dos Documentos da RCIT sobre a Guerra do Irão 2026, remetemos os leitores para uma subpágina do nosso site, https://www.thecommunists.net/worldwide/africa-and-middle-east/compilation-of-articles-on-the-iran-war-2026/ .

[13] Michael Pröbsting: Cessar-fogo na Guerra do Irão: Uma Grande Humilhação para o Monstro Americano-Sionista! Uma primeira avaliação do cessar-fogo de duas semanas e do início das negociações com base na proposta de 10 pontos do Irão, 8 de abril de 2026, https://www.thecommunists.net/worldwide/africa-and-middle-east/ceasefire-in-iran-war-a-great-humiliation-for-the-american-zionist-monster/

[14] Ver, por exemplo, Yossi Schwartz: A derrota dos Estados Unidos e de Israel faz parte da Lei da Negação da negação, 16 de junho de 2026, https://the-isleague.com/the-defeat-of-the-united-states-and-israel-is-part-of-the-negation-of-negation-law/ ; do mesmo autor: Ao contrário de Trump, que quer acabar com a guerra, Netanyahu está a pressionar pela continuação da guerra, 8 de junho de 2026, https://the-isleague.com/unlike-trump-who-wants-to-end-the-war-netanyahu-is-pushing-for-the-continuation-of-the-war/



[15] CCRI/RCIT: Começou outra guerra sionista-americana contra o Irão! Defendam o Irão! Derrotem os agressores imperialistas! 28 de fevereiro de 2026 de https://www.thecommunists.net/worldwide/africa-and-middle-east/another-zionist-american-war-against-iran-has-started/



[16] Veja estes vários relatórios no site da ccri/RCIT. Para um relatório do mais recente comício de solidariedade, veja Áustria: Manifestação contra a Guerra Americano-Sionista no Líbano e Irão, 14 de junho de 2026, https://www.thecommunists.net/rcit/rcit-activities-in-2026-part-3/#anker17 .