O escândalo do Masterbank brasileiro, e "Cryptogate" de Milei
João Evangelista
Existe um ditado famoso no Brasil que diz: "Quando as esmolas são muitas, o santo fica desconfiado."
O colapso e a liquidação do Banco Master expuseram diversas fragilidades no mercado financeiro e de investimentos do Brasil, servindo também como um alerta contundente para investidores, reguladores e gestores de fundos públicos.
A crise do Banco Master eclodiu oficialmente em 18 de novembro de 2025, quando o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial da instituição. Essa data marca o momento em que a falta de liquidez (a incapacidade do banco de cumprir suas obrigações) e os indícios de fraude, que já estavam sob investigação, culminaram na intervenção do regulador.
Antes de sua liquidação, o Banco Master era conhecido por oferecer retornos acima da média em seus Certificados de Depósito (CDBs) para atrair investidores. As taxas prometidas atingiam patamares significativamente altos, como até 140% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) em seus CDBs. A taxa do CDI é crucial porque acompanha de perto a taxa Selic (a taxa básica de juros para a economia brasileira, definida pelo Banco Central).
Para que você tenha uma ideia do quão absurda é a situação, a taxa de CDI oferecida por grandes bancos tradicionais brasileiros, como Bradesco e Itaú, geralmente gira em torno de 100% do CDI para a maioria dos investidores em seus produtos de liquidez diária (aqueles que podem ser resgatados a qualquer momento). Para os observadores mais atentos, ficou claro que se tratava de um golpe, um novo tipo de esquema de pirâmide financeira criado para atrair investidores desavisados, ávidos por lucrar sem considerar os riscos. A lição mais importante é que retornos mais altos sempre vêm acompanhados de riscos mais altos.
Algumas análises de mercado, como as de ex-diretores do Banco Central e de veículos de comunicação especializados, indicam que o déficit total, considerando a magnitude total das dívidas e dos ativos ilíquidos ou tóxicos, pode ultrapassar 40 bilhões de reais, possivelmente chegando a 50 bilhões de reais. Em valores atuais, isso equivale a aproximadamente 9 bilhões de dólares.
Conexões políticas
O caso Banco Master expõe uma vasta rede de conexões envolvendo políticos do Centrão (bloco de centro-direita), da extrema-direita e do PT (Partido dos Trabalhadores), com participação em vários níveis. O governador de Brasília, Ibaneis Rocha, do PMDB (apoiador de Bolsonaro), mesmo após receber recomendação contrária à injeção de recursos para a compra do Banco Master, só foi impedido de fazê-lo quando o Banco Central proibiu a operação em 23 de setembro.
Até hoje, ninguém entende o que poderia ter levado o governador a investir dinheiro público — isto é, o dinheiro do povo — em um banco à beira da falência, mas é fácil imaginar. A Polícia Federal está investigando se houve pressão política para finalizar a compra de 58% das ações do Banco Master pelo BRB (anunciada em março e rejeitada pelo Banco Central em setembro).
Governo do Rio de Janeiro: O principal caso em análise é o do Rio Previdência (fundo de previdência dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro). Qual é a suspeita? A investigação apura por que o governador do estado, Cláudio Castro, do Partido Liberal (PL) (apoiador de Bolsonaro), manteve investimentos no Banco Master mesmo após o Tribunal de Contas da União (TCE) ter alertado sobre a crise da instituição e recomendado o resgate dos recursos. Fontes indicam que 25%, aproximadamente um bilhão de reais, dos ativos do Rio Previdência estavam investidos em fundos administrados pelo Master.
Ciro Nogueira (Senador e Presidente do Partido Popular (PP), apoiador de Bolsonaro). Ciro Nogueira é considerado uma das figuras políticas mais próximas do controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e desempenhou um papel central nas investigações sobre a tentativa de resgate do banco por meio de um acordo com o Banco de Brasília (BRB, banco estatal). Tentativa de obstrução da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI): O senador teria se mobilizado nos bastidores para tentar bloquear a criação de uma CPI no Senado que investigaria o Banco Master, sugerindo uma tentativa de proteção.
Ricardo Lewandowski (atual Ministro da Justiça no governo Lula e ex-Juiz do Supremo Tribunal Federal). Seu envolvimento está ligado ao seu trabalho no setor privado durante o período entre sua aposentadoria do Supremo Tribunal Federal (STF) e sua nomeação como Ministro da Justiça. Lewandowski foi membro do Comitê Consultivo Estratégico do Banco Master. Ele foi contratado para prestar serviços de consultoria à instituição.
O que é o Fundo de Garantia de Crédito (FGC)?
O FGC (Fundo de Garantia de Crédito) é uma das instituições mais importantes do sistema financeiro brasileiro e funciona como uma espécie de "seguro" para depósitos e investimentos realizados em bancos e outras instituições financeiras afiliadas. Trata-se de uma instituição privada, sem fins lucrativos, mantida pelas próprias instituições financeiras, e sua principal missão é proteger investidores e depositantes em caso de falência, intervenção ou liquidação extrajudicial de um banco.
Isso representa um risco para o sistema financeiro?
Embora o Banco Central descarte o risco sistêmico, o caso Master consumiu quase 30% das reservas líquidas da FGC (aproximadamente R$ 41 bilhões). A corrupção e a fraude financeira não são uma anomalia ou recurso de alguns indivíduos, mas sim uma característica inerente ao capitalismo em seu estágio atual.
Em períodos de crise, o capital migra para setores onde o lucro é mais rápido, onde se realiza com maior frequência do que nos ciclos de produção, mas também com maior risco. É por isso que este tipo de fraude, como a do presidente argentino Javier Milei — com criptomoedas —, é uma tendência típica do capitalismo em declínio, implicando, portanto, todos os governos e partidos pró-mercado, tanto de direita quanto populistas; ninguém está isento, pois todos, com diferentes formas e matizes, defendem os mesmos interesses: os dos capitalistas.

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